Esquerda, Direita e a Inveja.

A inveja é a consciência de não ter algo que ou outro tem. Isto passou a existir, durante a evolução da vida no planeta, logicamente, com a evolução do cérebro animal. Desta forma, animais mais evoluídos intelectualmente como os mamíferos e, mais especialmente, os de hábitos associativos como canídeos e primatas, apresentam este sentimento inquietador, a inveja, mais envolto em relacionamentos sociais e políticos.

O sentimento de inveja causa algum grau de desconforto no indivíduo que o sente e, com isto, uma necessidade de saneamento se lhe apresenta.

Gosto de citar os canídeos e, mais especialmente os cães domésticos, Canis familiaris, por ser uma espécie bem conhecida por nós ou, pelo menos, são facilmente enxergados pelo mundo humano. Desta forma, se um cão percebe que o outro tem um osso e ele não, estabelece-se o referido desconforto denominado inveja.  Diante disto, se o detentor do osso é menos poderoso, tem seu osso tomado. Se o detentor for mais poderoso, resta ao outro a resignação, a submissão paciente aos dissabores da vida. E, só para complementar: se uma matilha ou uma alcateia encontra outra devorando uma caça próxima a uma fronteira de território, o mesmo processo se desencadeia e, não raro, gerando uma guerra de dominação de bens e território entre os dois grupos.

Nos primatas do gênero Homo e, mais especialmente na nossa espécie Homo sapiens, o desenvolvimento de uma vida sedentária e urbana gerou necessidade de aprimoramentos de civilidade e refinamento das relações sociais. O instinto basilar da inveja, porém, continua presente e desencadeando reações saneadoras.

Aqui cabe uma caracterização de dois caminhos saneadores: 1) tomar do outro o que o outro tem; 2) obter também o que o outro obteve.

No mundo contemporâneo livre, de economia de mercado, as virtudes da intelectualidade costumam render mais benefícios. Mas para um bom desenvolvimento da capacidade intelectual, um conjunto de elementos deve estar presente no desenvolvimento do indivíduo: necessidades básicas supridas, carinho familiar, educação de qualidade…; que em seu conjunto, se complementam para, juntamente com um caráter pessoal de respeito e consideração, possibilitar ao indivíduo segurança e condições para tentar “obter também o que o outro obteve”.

Se, porém, elementos destes estiverem faltantes, o primitivismo do ser tende a aflorar em graus diversos, notadamente nos de mais efetiva testosterona e de mais vil caráter, para tentar “tomar do outro o que o outro tem”.

A presença de líderes mobilizando pessoas tem feito, historicamente, uma polarização lucrativa para eles, quase nunca para as massas representadas.

Assim, penso que a profissionalização da gestão do Poder Executivo e o inexorável enfraquecimento do poder dos representantes políticos, pelas votações legislativas diretamente pela internet, deverão trazer melhoramentos civilizatórios significativos. Tudo, logicamente, muito a contragosto dos políticos profissionais, que procurarão retardar ao máximo sua própria extinção.

 

Tchelo De Negri

 

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